'Minha mãe não esqueceria': erros e informações da internet em cartas psicografadas fazem famílias suspeitarem de fraudes

  • 08/09/2026
(Foto: Reprodução)
Famílias que buscaram cartas psicografadas com Maira Rocha acusam a médium de coletar informações na internet para produzir as supostas mensagens dos mortos. Para famílias que perderam pessoas queridas, receber uma suposta mensagem de alguém que morreu pode representar uma forma de aliviar a dor do luto. Mas, para algumas delas, a experiência trouxe dúvidas e desconfiança. Nomes, datas, relações familiares e até detalhes que já estavam disponíveis na internet apareceram nas cartas atribuídas a parentes mortos. Os relatos estão entre as situações que levaram famílias a questionar a autenticidade de cartas psicografadas recebidas por meio do trabalho da médium Mayra Rocha, em Brasília. Há registros de ocorrências policiais e denúncias contra ela em diferentes estados. Mayra não aceitou gravar entrevista para responder às acusações. Um dos casos é o de Marcela, que perdeu o filho Henrique, de 18 anos, em um acidente de carro. Durante uma live, ela afirma ter recebido mensagens atribuídas ao jovem. Uma delas dizia que Henrique era jogador de futebol. O problema, segundo Marcela, é que o filho não era jogador profissional. Ele havia participado de campeonatos, mas não exercia a profissão. A informação, no entanto, aparecia em uma reportagem sobre o acidente, acompanhada de uma foto dele usando uniforme de futebol. Em outra mensagem, a médium afirmou que Henrique estava acompanhado de João Vitor e Letícia quando morreu. Os três, porém, não estavam juntos no carro. A explicação encontrada pela família foi novamente uma informação disponível na internet. Uma fotografia usada em uma campanha de arrecadação de alimentos durante a pandemia reunia imagens de Henrique e dos outros dois jovens. Os três haviam morrido em momentos e circunstâncias diferentes. Nomes e datas que não batiam Diva também passou a desconfiar da carta atribuída ao pai depois de encontrar informações que, segundo ela, não faziam sentido. Logo no início do texto, a carta dizia que o pai queria falar com Judite, esposa de um tio. O problema é que, segundo Diva, a mulher havia morrido um ano antes dele. Outro ponto chamou a atenção: a carta utilizava nomes que não eram usados pela família para se referir a dois irmãos adotivos de Diva. Os nomes que apareciam no documento eram os nomes registrados originalmente, mas, depois da adoção, eles passaram a ser chamados por outros nomes. Diva também encontrou um erro na data de nascimento do pai. A carta dizia que o aniversário dele era em 5 de maio. A família sabia que ele havia nascido em 16 de maio. Ao pesquisar a origem do erro, ela encontrou um blog da cidade onde o pai havia nascido que trazia justamente a data de 5 de maio de 1918. “Ali meio que desmontou toda a carta”, contou. Para ela, a sequência de informações incorretas e coincidências com conteúdos disponíveis na internet foi determinante para colocar em dúvida a origem da mensagem. Silvano é outro que também denunciou Maira Rocha. Ele considerou a carta da mãe, morta no ano 2000, uma fraude. "Nós percebemos que ela esqueceu de um neto. Minha mãe não esqueceria de um neto, mas o mais sério é a Tábata. A Tábata não é neta da minha mãe, ela é sobrinha da minha cunhada. Eu resolvi registrar um boletim de ocorrência na Polícia Civil do Distrito Federal, eu relatava carta e dizia das incoerências". 'Minha mãe não esqueceria': erros e informações da internet em cartas psicografadas fazem famílias suspeitarem de fraudes Reprodução/TV Globo Informações que estavam nas redes sociais O caso de Marina também começou com uma experiência que, inicialmente, pareceu confirmar a autenticidade da carta recebida após a morte do marido, Thiago, que morreu de leucemia. Durante o contato com a médium, Marina contou informações sobre o marido e entregou uma foto dele. Depois, recebeu uma carta com detalhes que considerou muito pessoais. Um deles foi a expressão “te amo pra cacete”. Marina reconheceu a frase porque havia encontrado a mesma expressão em uma antiga mensagem de aniversário enviada pelo marido. A carta também mencionava que ele era um pai apaixonado e fazia referência a uma tatuagem de âncora com o nome dela. Outros detalhes sobre o período em que Thiago esteve internado também apareciam no texto. Foi o filho mais velho de Marina, Nicolas, quem percebeu que parte dessas informações estava nas redes sociais do pai. Entre os conteúdos disponíveis havia uma foto de Marina colocando chá de camomila gelado no marido durante o período de internação, além da mensagem em que ele havia usado a expressão que apareceu na carta. Mas havia ainda um detalhe que não estava publicado na internet. O filho caçula de Marina, Mateo, tinha entregado uma carta à médium pedindo que ela transmitisse uma mensagem ao pai. O menino sofria bullying na escola e queria uma resposta que pudesse mostrar aos colegas que, apesar da morte, continuava tendo um pai. Segundo Marina, a mensagem apareceu posteriormente na psicografia. A experiência, que inicialmente trouxe conforto à família, acabou se transformando em motivo de sofrimento. Marina afirma que Mateo entrou em depressão e que a situação representou um “segundo luto” para os dois. O rastro digital deixado por quem morreu Especialistas ouvidos pela reportagem alertam que a quantidade de informações disponíveis na internet pode facilitar a produção de mensagens aparentemente personalizadas. Segundo o escritor e pesquisador espírita Pedro Camilo, dados fornecidos previamente ao médium e informações coletadas antes da sessão são pontos que merecem atenção. Em alguns casos, segundo ele, é possível cruzar nomes e outros dados disponíveis na internet e montar um conjunto de informações sobre a pessoa morta e seus familiares. A reportagem também ouviu pesquisadores e especialistas em espiritismo e mediunidade. Eles ressaltam que cartas psicografadas podem ser produzidas de forma séria e que o fenômeno é estudado por pesquisadores brasileiros há anos. Na Universidade Federal de Juiz de Fora, por exemplo, pesquisadores realizam estudos com médiuns voluntários sem contato prévio com as pessoas enlutadas. Durante as pesquisas, os médiuns são monitorados enquanto produzem as cartas. O psiquiatra e pesquisador Alexander Moreira Almeida afirma que os estudos realizados até hoje apresentam evidências de que algumas pessoas classificadas como médiuns conseguem obter informações precisas sobre pessoas mortas sem recorrer a meios convencionais. Ao mesmo tempo, lideranças espíritas alertam para a existência de falsos médiuns e defendem que possíveis casos de fraude sejam denunciados. Denúncias Além dos relatos das famílias, há registros policiais contra Mayra Rocha em pelo menos cinco estados, segundo a reportagem. As ocorrências envolvem acusações como estelionato, calúnia, difamação e ameaça. O Ministério Público também recebeu acusações relacionadas a apropriação indébita, desvio de recursos e suposta rede de influência com servidores públicos. Sete lideranças espíritas assinaram um manifesto em apoio a Marina e ao filho e apresentaram uma notícia-crime contra Mayra por suspeitas de estelionato, charlatanismo e por suposto crime previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente. As famílias que denunciaram a médium afirmam que o principal ponto de desconfiança foi perceber que informações atribuídas aos mortos poderiam ter sido obtidas de fontes acessíveis: reportagens, fotografias, redes sociais e até conversas realizadas antes das cartas. Para especialistas, o cuidado é ainda mais importante porque as pessoas que procuram esse tipo de mensagem estão, muitas vezes, vivendo um dos momentos mais vulneráveis de suas vidas. “É um estelionato por luto”, resume um dos pesquisadores ouvidos pela reportagem, ao alertar para o impacto que uma eventual mensagem forjada pode causar em quem busca apenas uma forma de lidar com a perda. O Fantástico procurou Mayra Rocha diversas vezes para que ela respondesse às denúncias e às acusações de fraude nas cartas psicografadas. Ela não aceitou gravar entrevista. Máira Rocha Reprodução/Globo GloboPop: clique para ver os vídeos do palco do Fantástico Ouça os podcasts do Fantástico ISSO É FANTÁSTICO O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação. 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FONTE: https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2026/09/08/erros-e-informacoes-da-internet-os-detalhes-que-levaram-familias-a-suspeitar-de-fraudes-em-cartas-psicografadas.ghtml


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